Maio 12, 2009

SP EM CENA
Bianca Tavolari, integrante do SAJU-USP e aluna do terceiro ano da Faculdade de Direito da USP.

A reportagem de capa da Revista da Folha do dia 3 de maio traz a notícia: a cidade de São Paulo superou o Rio de Janeiro como locação para comerciais estrangeiros. O tom da matéria vangloria a arquitetura paulistana, faz um top 5 dos locais mais procurados para filmagem na cidade, entrevista produtores e publicitários que entendem que aqui é o cenário ideal a suas superproduções.

É representativa a passagem: “A multiplicidade paulistana é um produto bem vendável. Para ‘vender’ São Paulo, um dos principais argumentos, além da diversidade étnica, é a possibilidade de encontrar, na cidade e nos arredores, tudo o que se precisa para um filme: centro movimentado, parques, mata, praia, cachoeira”, explica uma integrante do projeto FilmBrazil, que se encarrega de freqüentar eventos internacionais de disputa de cidades, em uma árdua concorrência global por um “lugar ao sol” - comerciais de multinacionais de peso, um longa-metragem e até, quem sabe, uma Olimpíada ou uma Copa do Mundo.

E, ainda por cima, nossa cidade é um cenário privilegiado, que consegue levar vantagem sobre Nova Iorque! Yes, nós temos Cidade Limpa! Sim, a ausência dos outdoors facilita bastante, sem a poluição visual, gasta-se menos em locação de espaços, precisa-se de menos tempo em estúdio e menos Photoshop nos retoques pós-produção. Temos, à nossa frente, um cenário neutro de publicidades, mas, ao mesmo tempo, “étnico”: São Paulo é todos os lugares e também não é nenhum.

O enfoque dado consegue materializar de forma bastante clara o mito da cidade global, sobre o qual Otília Arantes e Ermínia Maricato já vêm falando há algum tempo. Nesses nossos tempos de agora, as cidades devem ser atrativas, demonstrar possibilidades de lucratividade e de oportunidades, concorrendo entre si em escala global, numa suposta rede em que elas seriam os atores globais do processo de crescimento mundial. A cidade passa a ser entendida como mercadoria, mas com um apelo pessoal (já que os consumidores querem diferenciação, sempre): é personificada, entendida como atora econômica, com “grande potencial fotogênico”, como diz a Revista da Folha.

Essa competição também se dá no nível da propaganda internacional. São Paulo é uma cidade que se destaca por oferecer preços baixos em relação àquelas do dito primeiro mundo. Tem as feições de metrópole (pós)-moderna, com edifícios espelhados e ponte estaiada �" faz um cartão-postal e tanto! E, assim, galga a posição de global city wannabe, coloca a placa de “invista em mim”, exibindo-se para agentes financeiros mundiais.

O tom da minha escrita revela que eu não me sinto lá muito entusiasmada com esse processo todo. Esse cenário é construído e pintado com bastante carga nas tintas: trata-se de uma produção do espaço e de cidade que segue um modelo bastante específico: cidades atraentes não podem mostrar “gente pobre”. E se o centro de São Paulo está no top da demanda por locação, entre outras características, não pode ter gente pobre morando nele, muito menos nas ruas. E o prefeito quer vender a cidade, claro �" teremos uma Copa em 2014, precisamos estar preparados! A solução é simples e em nada inova, posto que cotidiana: segregar espacialmente, “revitalizar” com o pressuposto de não haver vida, excluir quem está, de fato, bastante incluído no modelo perverso de cidade que é imposto. A imposição, porém, é palatável: ganha, entre outros espaços, capas de revista.

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